Não sei se todos que me lêem o conhecem, mas o homem carioca anônimo, conhecido apenas por José da Trino é, na verdade, o homenageado profeta Gentileza. Gentileza abriu mão da família, do conforto e de uma vida normal, pois um dia viu a luz. Eu explico. Segundo seus relatos, um dia acordou ouvindo vozes que o incentivavam a largar o mundo material e mergulhar no mundo espiritual. Assim ele o fez. Isto foi em dezembro 1961. Gentileza partiu como andarilho pela cidade do Rio de Janeiro falando de Jesus e de Deus e pregando a bondade e, principalmente, a gentileza que, segundo seus escritos é o antídoto contra a brutalidade do nosso tempo.
Em 1980, quase vinte anos depois de negar-se a si mesmo, Gentileza escolheu 56 pilastras do viaduto do Caju, zona norte do Rio, e registrou seus pensamentos de amor e perdão, além das denúncias mordazes contra o capitalismo, ao qual ele acusava de ser o "... capeta capital que vende tudo e destrói tudo", além de - já naquela época - vociferar contra a agressão ao meio ambiente, tão em voga atualmente.
Depois de catorze anos após a morte do chamado profeta, as pilastras se tornaram patrimônio do Rio e fazem parte de um projeto da prefeitura da cidade que inclui sua recuperação. Alguns religiosos mais radicais torcem o nariz para tanta atenção dada a um maluco que, vestido com uma bata branca cheia de apliques e empunhando um estandarte, pregava nas praças e colocava-se nas barcas entre Rio e Niterói anunciando sem cansar: "Gentileza gera Gentileza". Entretanto, pode ser que ele tenha feito mais pela paz do que muita gente que conhecemos, ou até mesmo do que nós mesmos.
Doutrinas à parte, numa coisa o profeta Gentileza tinha razão. A gentileza foi banida de nossa sociedade. Sentimos a falta dela no trânsito, nos atendimentos públicos, no relacionamento entre casais, na ligação entre pais e filhos. Graça, elegância, galantaria, ação nobre ou distinta. Todos estes sinônimos foram esquecidos no mundo contemporâneo. Mas, as pilastras gravadas com as palavras sábias e atemporais do carioca Gentileza nos fazem lembrar o contraveneno para a rudeza, brutalidade, egoísmo, insensibilidade e ingratidão que impera no mundo em que vivemos. Experimente reagir à uma grosseria de alguém com um sorriso e comprove o resultado. Lembre-se: gentileza gera gentileza.







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